Exposição Nossas Almas

Prefácio

Um olhar atento e disposição para ir e vir quantas vezes forem necessárias. Estes são dois importantes comportamentos que todo fotografo deve ter.

O olhar atento, sem duvida, é a principal ferramenta do fotógrafo. Com ele, é possível construir imagens nos mais complexos dos terrenos. A disposição de estar e de se adaptar a lugares distintos e nas mais diversas situações permite ao fotógrafo uma produção participativa, ou seja, de dentro dos fatos.

Essas, para mim, são as principais características que percebo neste ensaio Nossas Almas. Francisco transita do obvio ao obtuso com grande domínio, mantendo uma narrativa que demonstra muito dele no seu ser. Somos aquilo que vemos e, muito mais, o que mostramos.

Este é o segundo ensaio que tenho a oportunidade de conhecer. Ao acompanhar os bastidores de sua produção, pude ve-lo crescer a cada nova imagem. E o que me impressiona é a capacidade com que Francisco organiza seus personagens, suas luzes e seus panos de fundo, agindo como um diretor de teatro ou um diretor de fotografia. Com grande talento, ele determina como a luz deve se postar diante de seus efêmeros personagens, que caem como uma luva no recorte do visor da câmara.

Outro fato que chama a atenção é a capacidade de síntese e ao mesmo tempo abstração, sempre sem perder o foco principal, no caso, Juazeiro do Norte. Com isso, Francisco consegue, deste terreno tão refletido pelas lentes de centenas de outros fotógrafos, colher observações dignas de um olhar veterano, no sentido da busca pelo inusitado.

Não tenho dúvida de que este ensaio é uma fidedigna representação da forma impar de olhar, carregada de si, na qual Francisco se entrega a seu campo de pesquisa. Assim fazendo, o artista-fotógrafo ganha confiança das nuances de luzes que pousam à sua frente, deixando-se captur e sendo eternizadas dentro deste alçapão chamada fotografia.

Marcelo Reis | fotografo e diretor da Casa da Photographia

NOSSAS ALMAS

Há na alma nordestina, por certo, o encantamento da fé. Alguns homens perceberam isso com muita clareza, diria mesmo, com a intuição dos eleitos, dos escolhidos. Caminharam então para o seu povo, pregaram sem reservas, realizaram suas obras. Assim surgiram beatos, penitentes, taumaturgos; oradores itinerantes e inflamados, servos de Deus e de sua gente. Transfiguravam-se. Viviam errantes nas caatingas, entre cactos e bromélias, nos povoados distantes, nas terras esquecidas dos pobres e desvalidos. Migravam como o homem do sertão também migra em busca de água, de alimento, de vida. Mudavam de hábitos, trocavam as vestes, mas retemperavam com paixão o fogo da crença. Outros se fizeram sacerdotes, padres de pequenas vilas, testemunhas igualmente do opróbrio e da miséria dos seus párocos. Não choraram apenas. Ergueram as mãos e as vozes, juntaram o terço e a enxada, a fé e a labuta, as orações e os cantos operosos de trabalho. Tornaram verdes os campos estéreis, combateram e lutaram as boas batalhas. Tornaram-se dignos dos céus como desejaram em cada semente jogada na terra, em cada planta ofertando seus frutos, em cada gesto fraterno e solidário que repartia o pão e o teto, o riso e o pranto. Viveram e morreram na radicalidade dos seus sonhos. Assim surgiram o padre-mestre Ibiapina, magistrado e político em parte da sua vida, depois sacerdote que sem se ausentar do púlpito ergueu as Casas de Caridade, que acolheram centenas de jovens sertanejas. Em seguida, vindo de Quixeramobim, Antonio Conselheiro andejou sertão e sertões, deixando aqui e ali uma aguada, uma igrejinha, um cemitério, ou mesmo uma cidade. Canudos é o mundo beato tomando forma, ganhando corpo. Prematuramente destruída, tornou-se exemplo e referência.

O padre Cícero Romão Batista viveu e construiu seu apostolado em Juazeiro do Norte, Ceará, nos primeiros decênios do século XX. Além do sacerdócio, foi parlamentar e chefe político de muito prestígio e poder. Se viveu como homem, morreu sacralizado. Tornou-se estátua, ícone da religiosidade popular. Sua figura, em fotos, pinturas e toscas esculturas de madeira e gesso, ocupa venerado espaço em humildes moradas ou abastadas vivendas sertanejas. Seus feitos e milagres ocupam o imaginário e a poesia dos poetas populares, estão registrados nos folhetos de cordel e proclamados de boca em boca pelos menestréis de rua. Juazeiro do Norte, a Terra da Mãe de Deus, como é também conhecida pelo culto mariano fortemente enraizado na cultura dos que lá nasceram e vivem, recebe a cada ano, pontualmente, milhares de romeiros, homens, mulheres, velhos, jovens, crianças. Vão todos, contritos, agradecer as graças alcançadas, pagar suas promessas, pedir ajuda, buscar a cura para os males do corpo e do espírito. Rogam ao Padre santo e milagroso, que os resguarde e proteja. Chegam como podem: caminhando, em abarrotados paus-de-arara, em lombos de animais, carregados, se arrastando. A fé, dizem, remove montanhas. E produz, digo eu, belas imagens.

Francisco Vieira, engenheiro, longe das pranchetas e dos cálculos matemáticos, captou com o auxílio de uma máquina fotográfica, momentos especialíssimos dessa gente movida pela crença e pelo arrebatamento. Quando digo com o auxílio do equipamento, quero que se entenda literalmente o que escrevo, porque creio que ele fotografou mesmo foi com a alma, com os olhos abençoados da poesia, com as mãos sutis de um pintor dando rosto as suas criaturas viscerais. Como explicar então a noiva quase levitando nas ruas? Como enxergar, senão extasiado, a tosca vela na escuridão emblemática? Como interpretar o homem que esconde o rosto no próprio braço, deixando a mostra apenas os cabelos encanecidos, mas parecendo uma gaivota encolhida no ovo que se rompe? São 15 fotografias. Apenas imagens? Não, Francisco Vieira produziu, em verdade, tatuagens em nossas almas, em nossos corações.

MANOEL NETO, historiador/pesquisador/ Universidade do Estado da Bahia/Centro de Estudos Euclydes da Cunha – CEEC.

LOCUS SAGRADO

Milhares de rostos, chapéus, velas; uma só fé: em Deus e nos milagres do Padrinho Padre Cícero. Em Juazeiro do Norte, terra santa para milhares de peregrinos, imagens de devoção, de fé e de sofrimento se repetem, deixando-se ser capturadas pelas lentes de uma câmera fotográfica. Tons em branco e preto que revelam as dores, as esperanças e o amor dos devotos para com o seu santo protetor e milagreiro, do “meu padinho Padre Cícero”. Vindos de diferentes lugares do Brasil, esses romeiros cumprem as suas promessas, deixam os seus ex-votos, acendem suas velas e rezam as suas preces. Percorrendo os pontos santificados e milagrosos do locus sagrado que se tornou Juazeiro do Norte, os peregrinos realizam seus rituais, necessários para o estabelecimento e a continuidade da comunicação com o sagrado, com o Padre Cícero. Entretanto, essa comunicação, a relação entre romeiro e santo só é possível através da fé nos poderes e na santidade do padre prova que se encontra, para os romeiros, nas histórias e nos sinais dos milagres realizados pelo santo. Mas, é, sobretudo, no amor que se funda, entre devoto e santo, essa relação. Pois, o Padre Cícero é mais do que um santo milagreiro, ele é “meu padinho”, termo que designa uma relação de aliança que é também uma relação de parentesco ritual. Ele é, assim, protetor, confessor, amigo, parente. Ir a Juazeiro em peregrinação é também demonstrar essa fé e esse amor ao “meu padrinho”, é dizer ser merecedor das graças que ele pode conceder. É pedir, é retribuir. É sofrer no corpo as provações da peregrinação, mas também é ostentar na face e sentir no coração a emoção e a satisfação do dever cumprido, de se ter realizado, mesmo que por alguns instantes, nesse corpo, nessa alma e nesse locus sagrado, a união entre o terrestre e o celeste.Nessa terra santa, é através da fé que tudo é possível, que se pode alcançar a salvação da alma. Ir ao Dia dos Finados para Juazeiro é tradição, é o costume dos mais velhos. E, se os mais velhos de ontem já morreram, os mais velhos de hoje têm ainda mais razões para fazer a romaria. Lá estão eles, com suas roupas e seus modos de andar, olhar, rezar e viver Juazeiro. Ali estão, antes que deixem seus corpos nessa terra e vão ao encontro da salvação eterna.

EDWIN REESINK, antropólogo e professor do departamento de antropologia da Universidade Federal da Bahia – UFBA.

Fotos expostas

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Vídeo Nossas Almas

 

Fotos da abertura da exposição Nossas Almas em Salvador

Fotos da abertura da exposição Nossas Almas no Rio de Janeiro

Fotos da galeria da exposição Nossas Almas em Brasília

 

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